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COMPORTAMENTO NA DEMÊNCIA
Apatia na demência: por que a pessoa perde a iniciativa e como ajudar
Apatia na demência é a perda de iniciativa e de interesse: a pessoa passa horas parada, não puxa conversa e não começa nada sozinha, mas nem sempre parece triste. É um dos sintomas mais comuns da doença e vem das mudanças no cérebro. Ajuda muito oferecer atividades concretas, com o começo guiado por quem cuida.

Dicas práticas para o dia a dia
- Comece a atividade junto com a pessoa, em vez de perguntar se ela quer fazer.
- Ofereça tarefas com propósito, como dobrar roupas, regar plantas ou separar talheres.
- Divida cada tarefa em passos pequenos e dê um passo de cada vez.
- Aumente aos poucos: uma batata descascada hoje, duas amanhã.
- Elogie o que foi feito quando ela parar, em vez de pedir mais.
- Chame para uma volta no quarteirão ou um passeio de carro, comentando o que aparece no caminho.
- Coloque músicas da juventude dela em momentos fixos do dia.
- Evite chamar de preguiça ou insistir com cobranças.
Apatia é depressão?
Nem sempre. Na apatia, falta o motor para começar as coisas. Na depressão, há sofrimento: tristeza, choro, culpa, falas de desesperança.
A pessoa apática costuma aceitar bem quando alguém propõe algo e até se diverte durante a atividade. Ela só não toma a iniciativa. Já a pessoa deprimida muitas vezes recusa, diz que nada tem graça ou que não vale a pena.
As duas coisas podem acontecer juntas, e aí o cuidado muda. Se você nota tristeza, irritação ou falas negativas, leia também sobre depressão na demência.
Por que a apatia acontece na demência?
A apatia vem de alterações nas áreas do cérebro que planejam e dão impulso às ações. Na doença de Alzheimer, ela aparece em boa parte das pessoas, às vezes antes mesmo do esquecimento chamar atenção, e tende a durar ao longo dos anos. As revisões sobre o tema mostram que é um dos sintomas mais frequentes e persistentes (Lanctôt e colaboradores).
Tem também um lado prático. Quando cozinhar, ler ou ver um filme ficou confuso, a pessoa evita. Ela não sabe mais por onde começar e prefere ficar quieta a errar na frente dos outros.
Se recolher pode ser a forma que ela encontrou de se proteger quando tudo ficou complicado. Por isso, pressionar costuma gerar irritação ou choro.
Isso é comum e não é culpa de ninguém. Também não é falta de caráter ou de força de vontade.
O que fazer no dia a dia?
O segredo é trocar a pergunta pelo convite com a mão na massa. Em vez de dizer “Quer me ajudar?”, tente “Vem cá, segura aqui esse pano para mim” e já entregue o pano.
- Escolha algo que ela sabia fazer bem. Quem costurou a vida toda pode separar botões. Quem trabalhou com contas pode organizar moedas ou notas de supermercado.
- Prepare o ambiente antes. Deixe o material na mesa, a TV desligada e só o necessário à vista.
- Faça o primeiro movimento junto. Muitas vezes, depois que a atividade começa, ela continua sozinha.
- Use a música. Canções da juventude costumam despertar interesse, memórias e até vontade de cantar ou dançar. Os estudos mostram benefício modesto, principalmente no humor (revisão Cochrane).
- Coloque o corpo em movimento. Uma volta no quarteirão ou um passeio de carro muitas vezes melhora o ânimo, e a vontade aparece depois que a pessoa começa.
- Termine bem. Se ela parar depois de poucos minutos, elogie o que foi feito em vez de pedir mais. Encerre enquanto ainda está agradável e agradeça a ajuda.
Se a tentativa de animar deixa a pessoa agitada, pese o que vale mais naquele dia. Os bons sentimentos duram mais do que a lembrança: a visita dos netos pode deixar a pessoa bem por horas, mesmo que ela esqueça a visita logo depois. Quem cuida não precisa dar conta de tudo sozinho. Centro-dia, outros familiares ou um acompanhante contratado podem assumir parte das atividades.
Programas que adaptam as atividades ao que a pessoa ainda consegue fazer ajudaram famílias a reduzir comportamentos difíceis e o cansaço de quem cuida (Gitlin e colaboradores). Veja mais ideias em rotina e atividades.
O que evitar com a pessoa apática?
- Frases como “Você não faz mais nada” ou “Levanta desse sofá”. Elas geram vergonha e mais retraimento.
- Perguntas abertas demais, como “O que você quer fazer hoje?”. Escolher ficou difícil.
- Atividades infantis ou complicadas demais. O ideal é algo adulto, simples e com sentido.
- Deixar a TV ligada o dia inteiro como única companhia.
- Achar que ela está fazendo de propósito. A falta de iniciativa é parte da doença.
Também não vale forçar. Se hoje não deu, tente de novo mais tarde, com outra proposta.
Quando procurar o médico por causa da apatia?
Vale conversar com o médico sempre que a apatia estiver atrapalhando a vida da pessoa ou da família. Procure antes se ela surgiu de repente ou piorou rápido.
- Mudança rápida, em dias, com mais sonolência ou confusão: pode ser infecção, desidratação ou delirium.
- Início depois de um remédio novo ou de uma troca de dose.
- Sinais de dor, dificuldade para enxergar ou ouvir, que isolam a pessoa.
- Tristeza, choro, perda de peso ou falas de morte, que sugerem depressão.
Na consulta, o médico revisa os remédios, pede exames quando necessário e ajuda a separar apatia de depressão. Na Clínica L’ami, a primeira consulta tem duas horas, e a família tem tempo para contar como são os dias em casa. O foco está nas medidas práticas. Remédio para apatia existe em situações específicas e só com avaliação médica.
Procure atendimento no mesmo dia se a apatia surgir de repente, junto com sonolência, confusão, febre, queda ou recusa para comer e beber. Pode ser delirium, infecção ou efeito de remédio. Se a pessoa falar em morrer ou em se machucar, ligue para o CVV 188 (24h, gratuito) ou SAMU 192, ou vá ao pronto-socorro.
Para quem cuida
Conviver com alguém que parece não se importar com nada cansa e às vezes magoa. Lembre que a apatia é da doença, não uma resposta a você. Divida as atividades com outras pessoas da família e aceite que alguns dias serão mais parados. Cuidar do seu descanso também faz parte do cuidado.
PERGUNTAS FREQUENTES
Dúvidas sobre apatia
Apatia é depressão?
Nem sempre. Na apatia falta iniciativa, mas a tristeza pode ser pouca ou nenhuma. Na depressão há sofrimento, como choro, desesperança e irritação. As duas podem aparecer juntas, e o médico ajuda a diferenciar.
A apatia na demência tem tratamento?
Tem manejo. As medidas que mais ajudam são atividades com propósito, rotina previsível, música e contato social. Em alguns casos o médico pode considerar remédio, sempre depois de avaliar a pessoa e os outros remédios em uso.
Meu pai passa o dia no sofá. Devo insistir?
Insistir com cobrança costuma piorar. Funciona melhor começar a atividade junto com ele, de forma simples e concreta, e aceitar uma participação pequena. Pouco movimento já é um ganho.
A apatia pode aparecer antes do esquecimento?
Pode. Em algumas pessoas, a perda de interesse e de iniciativa aparece antes das falhas de memória ficarem evidentes. Se isso chamou sua atenção, vale uma avaliação.
Que atividades ajudam uma pessoa apática?
Tarefas domésticas simples, música da juventude, álbum de fotos, caminhadas curtas e receitas fáceis. O melhor é escolher algo ligado à história e aos gostos dela.
A apatia está pesando na rotina da família?
Uma avaliação ajuda a separar apatia de depressão e a montar um plano prático para casa. A família participa da consulta.
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Conteúdo revisado por Dr. Thyago Furtado (CRM-SP 194425 · RQE Psiquiatria 71263 · RQE Psicogeriatria 712631). Última revisão: setembro de 2026. As informações desta página são educativas e não substituem a avaliação médica.
Referências
- Lanctôt KL, et al. Apathy associated with neurocognitive disorders: Recent progress and future directions. Alzheimers Dement. 2017;13(1):84-100.
- Kales HC, Gitlin LN, Lyketsos CG. Assessment and management of behavioral and psychological symptoms of dementia. BMJ. 2015;350:h369.
- Gitlin LN, et al. Tailored activities to manage neuropsychiatric behaviors in persons with dementia and reduce caregiver burden: a randomized pilot study. Am J Geriatr Psychiatry. 2008;16(3):229-39.
- van der Steen JT, et al. Music-based therapeutic interventions for people with dementia. Cochrane Database Syst Rev. 2025;3(3):CD003477.
- Mace NL, Rabins PV. The 36-Hour Day: a family guide to caring for people who have Alzheimer disease and other dementias. 7th ed. Baltimore: Johns Hopkins University Press; 2021.