Início › Cuidador › Comportamento › Depressão na demência

COMPORTAMENTO NA DEMÊNCIA

Depressão e Alzheimer: como reconhecer e ajudar em casa

A depressão é frequente em pessoas com Alzheimer e outras demências e muitas vezes passa despercebida. Nem sempre aparece como tristeza falada: pode surgir como choro fácil, irritação, recusa para comer, sono alterado ou falas de morte. Tem tratamento, que combina atividades prazerosas, contato social, exercício, psicoterapia adaptada e, quando o médico indica, remédio.

Filha abraça a mãe idosa, as duas sorrindo
Foto: Christopher Echols / Unsplash

Dicas práticas para o dia a dia

  • Observe mudanças de humor que duram mais de duas semanas e anote quando aparecem.
  • Ofereça tarefas em que ela consiga acertar, simplificando até dar certo.
  • Prefira a visita de uma pessoa querida por vez a encontros cheios.
  • Caminhe com a pessoa, de preferência pela manhã e com luz do dia.
  • Troque o “reage, você tem tudo” por “estou vendo que hoje está difícil”.
  • Leve a sério queixas de saúde e peça avaliação antes de achar que é mania.
  • Leve a sério qualquer fala sobre morrer e guarde remédios, facas, armas e chaves do carro.
  • Evite bebida alcoólica e não dê calmantes ou antidepressivos por conta própria.

Como a depressão aparece em quem tem demência?

Muitas vezes, de um jeito diferente do que a família espera. Com a memória e a linguagem prejudicadas, a pessoa nem sempre consegue dizer “estou triste”.

Fique atento a sinais como:

  • Choro fácil ou olhar triste por boa parte do dia.
  • Irritação, impaciência ou agressividade que antes não existiam.
  • Recusa alimentar e perda de peso.
  • Sono bagunçado: insônia, ou ficar na cama o dia todo.
  • Falas como “Eu só dou trabalho”, “Queria morrer”, “Deus podia me levar”.
  • Queixas de dor ou mal-estar sem causa clara.
  • Cansaço constante, ou sensação de ter feito algo errado e merecer castigo.
  • Teimosia ou hostilidade fora do habitual.
  • Afastamento de pessoas e coisas de que gostava.

A depressão é comum, mas não é parte obrigatória da demência. Tristeza profunda que não passa não deve ser vista como “normal da doença”, e costuma responder ao tratamento.

A Alzheimer’s Association estima que uma parte importante das pessoas com Alzheimer tenha depressão significativa, mais nas fases inicial e intermediária (alz.org).

Qual a diferença entre depressão e apatia?

A apatia é falta de iniciativa. A depressão traz sofrimento.

A pessoa apática fica parada, mas aceita quando alguém propõe algo e pode até se divertir. A pessoa deprimida sente tristeza, culpa ou desesperança, e muitas vezes recusa o convite porque “nada tem graça”.

As duas podem coexistir. Separar uma da outra ajuda a escolher o que fazer. Veja o guia sobre apatia na demência. Quando a dúvida é se os esquecimentos vêm da própria depressão, leia depressão ou demência.

Por que a depressão é tão comum na demência?

Por dois caminhos que se somam. A doença altera circuitos do cérebro ligados ao humor. E a pessoa vive perdas reais: independência, papel na família, direção do carro, amizades.

No início, quando ainda percebe as falhas, ela pode sentir vergonha e medo do futuro. Isso é comum e não é culpa de ninguém.

Dor não tratada, problemas de visão e audição, isolamento e alguns remédios também pesam no humor.

Como a família pode ajudar em casa?

Com pequenas doses diárias de prazer, companhia e movimento. Na prática:

  1. Monte uma rotina previsível, com horários parecidos para acordar, comer e sair. Veja ideias em rotina e atividades.
  2. Inclua uma coisa boa por dia: café na padaria, ouvir as músicas preferidas, ver fotos antigas, mexer nas plantas.
  3. Proteja o contato social. Visitas curtas de netos ou amigos valem mais do que um almoço longo e barulhento. Peça a quem visita que converse com ela, olhando nos olhos.
  4. Escolha tarefas em que ela acerte. Pequenos fracassos desanimam. Se arrumar a mesa ficou difícil, peça um lugar só. Se ainda for muito, só os pratos.
  5. Movimente o corpo, com caminhadas na medida do possível.
  6. Valide o sentimento. Em vez de “Que bobagem, você tem tudo”, tente “Parece que hoje está difícil. Eu fico aqui com você.”

Pedir para a pessoa “reagir” não funciona, e tentar animar a qualquer custo pode fazer ela se sentir incompreendida. Na fase inicial, conversar com um psicólogo ou com um líder religioso que entenda de demência pode ajudar.

A música com significado para a pessoa ajuda um pouco nos sintomas depressivos, segundo revisão Cochrane recente (van der Steen e colaboradores).

Como é o tratamento da depressão na demência?

O tratamento combina várias frentes e é ajustado para cada pessoa.

  • Atividades prazerosas e contato social, como descrito acima.
  • Exercício físico adaptado à condição de cada um.
  • Psicoterapia adaptada, com sessões mais simples e participação da família. Abordagens de base cognitivo-comportamental, como a ativação comportamental, mostraram benefício pequeno a moderado (revisão Cochrane).
  • Remédio, quando o médico indica. Nem todo caso precisa, e os estudos mostram que o remédio sozinho nem sempre resolve a depressão na demência. A escolha leva em conta as outras doenças e os remédios em uso.

Para saber mais sobre o quadro em idosos em geral, veja depressão no idoso.

Quando procurar o médico?

Procure uma avaliação se a mudança de humor dura mais de duas semanas ou está atrapalhando comer, dormir ou conviver. Busque ajuda imediata se houver falas de morte ou risco.

Queixas de saúde repetidas merecem exame. Se nada físico for encontrado, a depressão pode ser a causa. Fique atento também ao álcool e a calmantes usados por conta própria, que pioram o humor e a memória.

Na consulta, o médico conversa com a pessoa e com a família, revisa os remédios, pede exames quando necessário e procura causas como dor, infecção ou problemas de tireoide. Na Clínica L’ami, familiares e cuidadores participam da consulta sempre que indicado.

Se a pessoa falar em morrer, em se matar ou tentar se machucar, não deixe sozinha, afaste remédios, facas, armas, ferramentas e chaves do carro e procure ajuda agora: CVV 188 (24h, gratuito), SAMU 192 ou pronto-socorro. Confusão que começa de repente, febre ou parar de comer e beber também pedem atendimento no mesmo dia.

Para quem cuida

Ver alguém que você ama triste e sem esperança dói. Você não precisa resolver tudo sozinho, e a depressão dele não é falha sua. Quem cuida também tem risco de adoecer: se você anda sem dormir, irritado ou sem prazer em nada, procure ajuda para você também.

PERGUNTAS FREQUENTES

Dúvidas sobre depressão na demência

Depressão e Alzheimer podem acontecer juntos?

Sim, e com frequência. A depressão pode aparecer em qualquer fase, mas é mais comum nas fases inicial e intermediária. Tem tratamento e merece atenção.

Qual a diferença entre apatia e depressão na demência?

Na apatia falta iniciativa, sem tanta tristeza. Na depressão há sofrimento, como choro, culpa, irritação e desesperança. As duas podem coexistir.

Meu pai com demência diz que quer morrer. O que faço?

Leve a sério, não deixe sozinho e afaste objetos perigosos. Procure ajuda imediata pelo CVV 188, SAMU 192 ou pronto-socorro, e avise o médico que acompanha.

Antidepressivo funciona na demência?

Pode ajudar em alguns casos, mas os estudos mostram resultados menores do que em pessoas sem demência. Por isso a decisão é individual e sempre acompanhada de medidas não farmacológicas.

A depressão piora a memória?

Pode piorar a atenção e a disposição, o que deixa os esquecimentos mais evidentes. Tratar a depressão costuma melhorar o dia a dia, mesmo que a demência continue.

Percebeu mudanças no humor de quem você cuida?

Uma avaliação em psicogeriatria ajuda a entender o que está acontecendo e a montar um plano com a família.