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COMPORTAMENTO NA DEMÊNCIA

Demência e comportamento inadequado: como lidar com a desinibição

O comportamento inadequado na demência acontece porque a doença afeta a parte do cérebro que funciona como freio, e a pessoa perde a noção do que é adequado. É mais comum na demência frontotemporal. Reaja com calma e discrição, redirecione a atenção, proteja a pessoa e quem está por perto e converse com o médico.

Senhor idoso se inclina para conversar com a esposa sentada na poltrona da sala
Foto: Keith Tanner / Unsplash

Dicas práticas para o dia a dia

  • Mantenha a calma e fale em tom neutro, sem bronca e sem risada.
  • Se ele aparecer sem roupa, leve um roupão e ajude a vestir com naturalidade.
  • Leve a pessoa com discrição para um lugar reservado.
  • Ofereça algo para as mãos, como uma toalhinha ou um objeto com botões, se ele mexe muito na roupa.
  • Prefira calças de elástico e blusas com fecho nas costas se ele se despe em público.
  • Guarde cartões e talões e combine limites com o banco.
  • Não deixe crianças sozinhas com a pessoa se já houve comportamento sexual inadequado.
  • Conte ao médico tudo o que está acontecendo, mesmo o que dá vergonha.

Por que a pessoa com demência passa a ter comportamentos inadequados?

Porque a doença atinge as áreas do cérebro que filtram o que falamos e fazemos. Todos nós temos vontades e pensamentos que guardamos para nós. Na demência, esse freio enfraquece. A pessoa não escolhe agir assim e, muitas vezes, nem percebe o constrangimento que causa.

Esse quadro é mais marcante na variante comportamental da demência frontotemporal, em que a desinibição, a perda de empatia e as mudanças no jeito de comer podem aparecer antes dos esquecimentos. No Alzheimer e em outras demências, também pode surgir, em geral em fases mais avançadas.

Às vezes o que parece inadequado tem outra explicação: tirar a roupa por calor, coceira ou vontade de ir ao banheiro; mexer na roupa por desconforto com a fralda; confundir a cuidadora com a esposa. Infecção urinária, assaduras e coceira também levam a mão à região íntima e merecem avaliação médica. Por isso, observe o que vem antes de cada episódio.

Quando um pai se aproxima da filha de um jeito estranho, quase sempre a confunde com a esposa de muitos anos atrás, com quem a filha costuma se parecer. Dói, mas mostra que ele ainda guarda o casamento na memória. Afaste com gentileza e mude o assunto. O desejo sexual também pode aumentar ou diminuir com a doença, sem que isso diga algo sobre o casamento.

Quais comportamentos inadequados são mais comuns na demência?

Os mais frequentes são falas fora de hora, comentários ou gestos sexuais, tirar a roupa em público, gastos por impulso e comer demais. Cada família vive uma combinação diferente.

  • Falas inadequadas: comentários sobre a aparência de estranhos, palavrões, piadas fora de lugar, contar intimidades da família.
  • Comportamentos sexuais: toques, propostas, se tocar em lugares não reservados, investidas em cuidadoras ou visitas.
  • Tirar a roupa na sala com visitas ou em locais públicos.
  • Gastos por impulso: compras repetidas, doações, empréstimos, cair em golpes por telefone ou internet.
  • Comer demais: vontade exagerada de doces, pegar comida do prato dos outros, comer rápido demais, levar à boca coisas que não são comida.

A maioria das pessoas com demência mantém o pudor de sempre. A ideia de que todo idoso com demência vai se expor não tem base. Os comportamentos sexuais inadequados aparecem em uma parcela menor das pessoas com demência, mas estão entre os que mais geram vergonha e silêncio nas famílias (revisão de 2022).

Como reagir sem humilhar?

Trate a situação como um sintoma da doença, com calma e discrição. Broncas, risadas e exposição diante de outras pessoas aumentam a confusão e ferem a dignidade de quem já está vulnerável.

  1. Respire. Uma reação de susto ou raiva costuma piorar a cena.
  2. Fale pouco, com firmeza gentil. Em vez de “que vergonha, pare com isso”, tente “vem comigo um instante” ou “vamos ajeitar a sua roupa”.
  3. Leve para um lugar reservado, sem puxar com força.
  4. Redirecione. Entregue algo para segurar, proponha uma tarefa, mude de assunto.
  5. Explique aos outros em poucas palavras: “ele tem uma doença que afeta o comportamento”. Algumas famílias levam um cartãozinho com essa frase para usar na rua.

Se uma criança presenciar, a sua reação pesa mais para ela do que a cena. Tire a pessoa com calma e explique em poucas palavras: “o vovô tem uma doença e esquece onde está”.

Mais exemplos de frases estão no guia de comunicação.

Como proteger a pessoa e quem está por perto?

Protegendo os dois lados ao mesmo tempo: a dignidade e o dinheiro de quem tem demência, e a segurança de quem convive com ela.

  • Crianças: se já houve qualquer comportamento sexual inadequado, crianças não devem ficar sozinhas com a pessoa. Essa regra protege a criança e também o idoso.
  • Cuidadoras e funcionárias: converse abertamente, explique que é sintoma, combine como agir e garanta que possam se afastar e pedir ajuda. Ninguém precisa aceitar toques ou assédio como parte do trabalho.
  • Roupas: peças com fecho nas costas, macacões ou calças sem zíper dificultam tirar a roupa em público.
  • Dinheiro: limites menores no cartão, cartões e talões guardados, bloqueio de empréstimos e compras por telefone. Com a evolução da doença, pode ser preciso buscar orientação jurídica sobre curatela.
  • Comida: porções servidas no prato, doces fora de vista, armários com trava se necessário.

O guia de segurança em casa traz outras adaptações.

O que evitar diante da desinibição?

Evite qualquer reação que envergonhe ou castigue. A bronca não ensina, porque a doença afeta justamente a capacidade de controlar o impulso.

  • Discutir, dar sermão ou tentar fazer a pessoa “entender que é errado”.
  • Rir, filmar ou comentar o episódio na frente dela.
  • Castigar, deixar sem comer ou trancar no quarto.
  • Esconder o problema do médico por vergonha.
  • Dar remédio por conta própria para acalmar ou “diminuir a vontade”.

Quando o médico precisa ajustar o tratamento?

Quando os comportamentos são novos, frequentes, colocam alguém em risco ou já trouxeram prejuízo financeiro. Também quando a família sente que perdeu o controle da situação.

  • Mudança recente e rápida de comportamento, que pode ser delirium, infecção ou efeito de remédio.
  • Comportamentos sexuais dirigidos a crianças, cuidadoras ou desconhecidos.
  • Gastos que já comprometeram as finanças da família.
  • Comer a ponto de engasgar, ganhar muito peso ou levar objetos à boca.
  • Mudança de personalidade em alguém ainda sem diagnóstico, principalmente antes dos 65 anos.

O médico revisa os remédios em uso (alguns podem aumentar a desinibição), procura outras causas e, quando necessário, indica tratamento. Não existe um remédio que resolva todos esses comportamentos, e a escolha é sempre individual. Saiba mais em remédios para comportamento na demência. Na consulta, a família pode falar desses assuntos delicados com tempo e em particular, se preferir.

Se houver risco para crianças ou investidas sexuais contra alguém, afaste a pessoa na hora e procure orientação médica. Confusão que aparece de repente, febre, queda ou sonolência fora do comum pedem atendimento no mesmo dia: SAMU 192 ou pronto-socorro.

Para quem cuida

É normal sentir vergonha, raiva ou tristeza ao ver alguém que você respeita agir assim. Esses sentimentos não fazem de você um mau filho ou uma má esposa. Fale sobre isso com alguém de confiança e com o médico. Quem cuida também tem limites, e pedir que outra pessoa assuma certas tarefas é legítimo.

PERGUNTAS FREQUENTES

Dúvidas sobre desinibição

Ele está fazendo isso de propósito?

Não. A doença afeta a parte do cérebro que controla impulsos e avalia o que é adequado. Numa conversa calma ele pode até saber que é errado, mas não consegue se frear no momento.

Isso significa que é demência frontotemporal?

Não necessariamente. É mais comum nela, sobretudo quando aparece cedo e antes dos esquecimentos, mas também acontece no Alzheimer e em outras demências. A avaliação médica ajuda a esclarecer.

Como evitar que ele gaste todo o dinheiro?

Guarde cartões e talões, reduza limites, peça ao banco bloqueio de empréstimos e compras por telefone e acompanhe o extrato. Deixar uma quantia pequena na carteira ajuda a manter a sensação de autonomia. Em fases mais avançadas, busque orientação jurídica.

O que fazer se ele assedia a cuidadora?

Converse com ela, explique que é sintoma da doença e combinem uma resposta firme e calma. Ela deve poder se afastar e pedir ajuda. Se o comportamento se repete, conte ao médico para rever o tratamento.

Por que ele passou a comer demais?

Mudanças no apetite e na saciedade são comuns em algumas demências, sobretudo na frontotemporal. Sirva porções no prato, deixe doces fora de vista e avise o médico se houver engasgos ou ganho de peso rápido.

Tem remédio para diminuir esse comportamento?

Em alguns casos o médico pode indicar remédio, depois de revisar o que a pessoa já toma e procurar outras causas. Não existe um remédio único, e nenhum deve ser dado por conta própria.

Esses comportamentos estão pesando em casa?

Na consulta de psicogeriatria, a família pode falar de assuntos delicados com tempo e sem julgamento, e sai com um plano.