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COMPORTAMENTO NA DEMÊNCIA
Idoso com Alzheimer quer ir embora: o que fazer
O idoso com Alzheimer quer ir embora porque se sente perdido ou inseguro, e muitas vezes procura a casa da infância, onde se sentia protegido. Evite discutir: acolha, concorde com calma e mude o foco. Para que ele não saia sozinho, use trancas discretas, identificação com telefone e avise vizinhos e porteiro.

Dicas práticas para o dia a dia
- Providencie uma pulseira que ele não consiga tirar, com nome, “tenho problema de memória” e telefone da família.
- Tenha sempre uma foto recente dele, de corpo inteiro, no celular.
- Avise porteiro, vizinhos e comerciantes do bairro.
- Instale trancas discretas, no alto ou embaixo da porta, e um sininho ou alarme que avise quando ela abrir.
- Deixe fora de vista casaco, bolsa, chaves e sapatos de rua.
- Se ele sair, caminhe junto em vez de gritar ou puxar, e volte para casa fazendo uma grande curva.
- Garanta caminhadas acompanhadas e tarefas ativas durante o dia.
- Comece a procurar na hora e ligue 190 se ele sumir.
Por que ele diz que quer ir para casa estando em casa?
Porque, para ele, aquele lugar deixou de parecer a casa dele. A demência apaga primeiro as lembranças mais recentes, e a “casa” que ele procura costuma ser a de décadas atrás: a da infância, a da mãe, a de quando os filhos eram pequenos.
Há outros dois motivos frequentes:
- Dificuldade de se localizar: a doença atrapalha o reconhecimento de cômodos, móveis e caminhos. O ambiente parece estranho, mesmo sendo o de sempre.
- Busca de segurança: “quero ir para casa” muitas vezes quer dizer “estou com medo e quero me sentir protegido”.
- Mudança recente: casa nova, temporada na casa de um filho, internação ou início em centro-dia deixam a pessoa perdida por semanas. Repita com paciência onde ela está e por quê, quantas vezes for preciso.
- Necessidades do corpo: tédio, energia sobrando ou vontade de ir ao banheiro também fazem a pessoa sair andando.
O pedido costuma aumentar no fim da tarde, quando o cansaço e a pouca luz aumentam a confusão. Falamos disso no guia sobre sono e entardecer. Perambular, andar de um lado para o outro e tentar sair são comportamentos comuns na demência e não são culpa de ninguém.
O que responder quando ele quer ir embora?
Responda primeiro ao sentimento que está por trás do pedido. Insistir que “aqui é a sua casa” costuma aumentar a angústia, porque ele sente que ninguém o entende.
- Acolha. Chegue perto com calma, voz baixa, e mostre que entendeu: “O senhor está com saudade de casa, né?”
- Converse sobre a casa. “Como era a sua casa? Quem morava lá?” Falar do lugar muitas vezes já traz o conforto que ele procura.
- Concorde e adie. Em vez de “o senhor já está em casa”, tente “Vamos sim. Antes, me ajuda a dobrar essas toalhas?” ou “Daqui a pouco a gente vai, primeiro vamos tomar um café.”
- Mude o foco. Música antiga, fotos da família, uma tarefa em que ele se sinta útil.
- Se nada funcionar, dê uma volta com ele. Caminhe ao lado, converse com calma e vá fazendo uma curva até voltar ao portão. Muitas vezes, ao retornar, ele se acalma. Gritar “volta aqui” ou correr atrás assusta e faz a pessoa acelerar.
Repetir essas estratégias todos os dias ajuda, porque a pessoa com demência guarda hábitos mesmo quando esquece fatos. O guia de comunicação traz mais exemplos de frases.
Como evitar que ele saia sozinho?
Combinando uma rotina ativa com mudanças simples na casa. Boa parte das pessoas com demência vai perambular em algum momento, e as medidas sem remédio são as mais usadas e seguras (revisão de 2024).
- Ocupe o dia. Caminhadas acompanhadas, tarefas simples, música. Quem se movimenta de dia tende a ficar mais tranquilo à tarde e à noite.
- Cuide das necessidades básicas. Fome, sede, vontade de ir ao banheiro e dor fazem a pessoa levantar e sair procurando algo.
- Observe os horários em que ele costuma querer sair e programe uma atividade para esse momento.
- Use trancas discretas. Uma trava extra no alto ou embaixo da porta, fora da linha dos olhos. Chaves guardadas.
- Disfarce a porta. Uma cortina ou um adesivo da cor da parede pode ajudar. Casaco, bolsa e sapatos de rua ficam fora de vista.
- Coloque um alarme simples. Um sininho na porta ou um sensor avisa quando alguém abre. À noite, luzes no corredor e um sensor de presença perto da cama ajudam.
- Pense duas vezes antes de viagens e mudanças. Lugar novo costuma aumentar a vontade de sair.
- Guarde a chave do carro se ele já não dirige com segurança.
Nunca deixe a pessoa trancada sozinha em casa. Em um incêndio, uma queda ou um mal-estar, ela não conseguiria sair nem pedir ajuda. Veja outras adaptações no guia de segurança em casa.
Que cuidados tomar antes que ele se perca?
Deixe tudo preparado como se um dia fosse acontecer. Em um desaparecimento, cada minuto conta.
- Identificação: pulseira, cordão ou etiqueta costurada na roupa com nome, a frase “tenho Alzheimer” (ou “tenho problema de memória”) e o telefone da família.
- Foto recente no celular de todos da família, de corpo inteiro, de preferência atualizada com frequência.
- Rede de apoio no bairro: porteiro, zelador, vizinhos, padaria, farmácia. Peça que liguem se o virem sozinho.
- Lista de lugares para onde ele poderia ir: casas antigas, antigo trabalho, igreja, bairro da infância.
- Cartão no bolso: na fase inicial, se ele ainda lê, um cartão com “fique calmo, espere aqui e peça para ligarem para este número” pode ajudar.
- Perigos do bairro: caminhe pelo trajeto e observe avenidas movimentadas, piscinas, obras e cães soltos.
- Localizador: relógios e aparelhos com GPS podem ajudar. Converse em família sobre o uso, sempre respeitando a dignidade da pessoa. Nenhum aparelho substitui a atenção da família.
O que fazer se ele sumir?
Comece a procurar na hora e ligue para a polícia pelo 190 logo no início. Não espere 24 horas: esse prazo não existe, e no caso de uma pessoa com demência a rapidez faz diferença.
- Procure primeiro dentro de casa e do prédio: garagem, escadas, quartos fechados, armários grandes.
- Percorra os caminhos que ele costumava fazer e os lugares da sua lista. Muitas pessoas são encontradas perto de casa.
- Ligue 190, diga que é uma pessoa com demência, descreva a roupa e mande a foto.
- Deixe alguém em casa, caso ele volte ou alguém ligue.
- Avise porteiros, vizinhos, comércio próximo e grupos do bairro.
- Ligue para hospitais e prontos-socorros da região.
Quando encontrá-lo, evite broncas. Ele provavelmente está assustado. Ofereça água, veja se há machucados e, se estiver muito confuso ou ferido, leve para avaliação.
Quando procurar o médico?
Quando a vontade de sair aumenta de repente, quando ele passa a sair à noite ou depois de uma fuga ou um susto. Esses são sinais de que o plano precisa ser revisto.
- Confusão maior que o habitual, que surgiu em horas ou dias. Pode ser delirium, causado por infecção, desidratação ou remédio.
- Inquietação sem descanso ou sinais de dor.
- Troca do dia pela noite.
- Medo intenso, desconfiança ou ver coisas que não existem.
- Irritação ou agressividade quando alguém tenta impedir a saída.
- Família sem conseguir dar conta da vigilância.
Remédios costumam ajudar pouco no andar sem rumo e podem aumentar a confusão e as quedas.
Na consulta, revisamos os remédios em uso, procuramos causas tratáveis e conversamos com a família sobre rotina e segurança.
Se ele sumir, procure imediatamente e ligue 190, sem esperar prazo. Confusão que aparece de repente, febre, queda ou sonolência fora do comum pedem atendimento no mesmo dia: SAMU 192 ou pronto-socorro.
Para quem cuida
Vigiar alguém o tempo todo cansa, e ninguém consegue fazer isso sozinho. Divida a atenção com outras pessoas da família, com o porteiro e com vizinhos de confiança. Se você cochilar e ele tentar sair, não se culpe: trancas e alarmes existem justamente para esses momentos.
PERGUNTAS FREQUENTES
Dúvidas sobre perambulação
Como evitar que o idoso com Alzheimer saia sozinho?
Mantenha o dia ocupado, cuide de fome, sede e banheiro, use trancas discretas fora da linha dos olhos e deixe casaco e chaves fora de vista. Um alarme simples na porta ajuda a perceber quando ela é aberta.
Por que ele diz que quer ir para casa estando em casa?
Porque a casa que ele lembra costuma ser a do passado, e a doença dificulta reconhecer o ambiente atual. Muitas vezes o pedido significa que ele está inseguro e quer se sentir protegido.
É errado concordar quando ele diz que vai embora?
Na maioria das vezes, concordar e adiar acalma mais do que corrigir. A prioridade é que ele se sinta seguro. Com o tempo, cada família descobre as frases que funcionam melhor.
Posso trancar a porta com ele dentro?
Trancas discretas são úteis quando há alguém em casa com ele. Deixar a pessoa trancada sozinha é perigoso, porque em uma queda, um incêndio ou um mal-estar ela não conseguiria sair nem pedir ajuda.
Preciso esperar 24 horas para avisar a polícia?
Não. Ligue 190 assim que perceber o sumiço e informe que se trata de uma pessoa com demência. Quanto antes a busca começar, maior a chance de encontrá-lo bem.
Existe remédio para a perambulação?
Não existe remédio específico para evitar que a pessoa saia andando. O médico procura o que aumenta a inquietação, como dor, infecção, sono ruim ou efeito de remédio, e trata o que for possível.
Ele tem tentado sair de casa?
Na consulta de psicogeriatria, procuramos o que está por trás da inquietação e combinamos com a família um plano de segurança.
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Conteúdo revisado por Dr. Thyago Furtado (CRM-SP 194425 · RQE Psiquiatria 71263 · RQE Psicogeriatria 712631). Última revisão: setembro de 2026. As informações desta página são educativas e não substituem a avaliação médica.
Referências
- Cipriani G, et al. Wandering and dementia. Psychogeriatrics. 2014;14(2):135-42.
- Park S, Lee Y. Non-pharmacological management of wandering in persons with dementia: an integrative review. Psychogeriatrics. 2024;24(5):1160-7.
- Neubauer NA, et al. What do we know about strategies to manage dementia-related wandering? A scoping review. Alzheimers Dement (Amst). 2018;10:615-28.
- Alzheimer’s Association. Wandering. Acesso em set. 2026.
- Mace NL, Rabins PV. The 36-Hour Day: a family guide to caring for people who have Alzheimer disease and other dementias. 7th ed. Baltimore: Johns Hopkins University Press; 2021.