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COMPORTAMENTO NA DEMÊNCIA
Idoso com demência não dorme à noite e piora no fim da tarde: o que fazer?
Quando o idoso com demência não dorme à noite, o primeiro passo é organizar o dia: luz natural pela manhã, atividade à tarde, poucos cochilos, jantar leve e uma rotina fixa de dormir. Também vale procurar causas tratáveis, como dor, vontade de urinar, apneia ou efeito de remédio. Calmante por conta própria costuma piorar a confusão.

Dicas práticas para o dia a dia
- Abra as cortinas e leve a pessoa para a luz do dia logo pela manhã.
- Programe uma caminhada ou atividade leve no começo da tarde.
- Limite os cochilos a um só, curto e antes das 15h.
- Corte o café, o chá preto e o refrigerante de cola a partir do almoço.
- Se a pessoa adormecer vestida no sofá de madrugada, deixe: discutir acorda a casa toda.
- Deixe para a manhã tarefas difíceis, como o banho, se o fim do dia costuma ser ruim.
- Repita todas as noites a mesma sequência para ir para a cama.
- Deixe uma luz noturna acesa no caminho até o banheiro.
Por que o idoso com demência piora no fim da tarde?
A piora no fim da tarde tem nome: síndrome do entardecer, ou sundowning. É comum na doença de Alzheimer e em outras demências. Perto do anoitecer a pessoa fica mais confusa, inquieta, irritada, quer ir embora para casa mesmo estando em casa, ou anda de um lado para o outro.
Isso acontece por uma soma de fatores. A doença afeta a parte do cérebro que funciona como relógio interno, e o corpo deixa de saber direito quando é dia e quando é noite. No fim do dia a pessoa já está cansada de tentar entender o mundo o dia inteiro. A luz diminui, as sombras confundem, a casa fica mais agitada com gente chegando, TV ligada e jantar sendo feito.
Um estudo brasileiro com familiares de pessoas com Alzheimer encontrou irritabilidade, alterações de comportamento noturno e agressividade mais frequentes justamente no período da tarde e da noite. Ou seja: se na sua casa é assim, você não está sozinho, e não é culpa de ninguém.
O que fazer na hora em que ele fica agitado à noite?
Na hora da agitação, o objetivo é baixar a tensão. Algumas atitudes ajudam:
- Fale baixo e devagar. Sua calma contagia mais do que qualquer argumento.
- Não discuta. Se ele diz que precisa ir para casa, em vez de “mas o senhor está em casa”, tente “o senhor está com saudade de casa? Me conta como era lá”.
- Ofereça algo concreto. Um copo de água, um lanche leve, ir ao banheiro, uma manta. Muitas vezes a agitação é fome, sede, frio ou bexiga cheia.
- Mude o ambiente. Desligue a TV, acenda mais luzes, vá para um cômodo mais tranquilo.
- Use algo que acalme. Música de que ele gostava na juventude, álbum de fotos, dobrar toalhas juntos.
Olhe também para a casa nesse horário: TV ligada, crianças chegando, você correndo com o jantar. Deixe a comida pronta desde o almoço, peça que alguém fique com ele ou dê uma tarefa simples perto de você, como descascar legumes. Seu cansaço também passa para ele.
Se ele acordar de madrugada, fale baixo e diga só que ainda é noite. Leve ao banheiro, ofereça água e fique sentado junto um pouco. Se ele se vestir e cochilar na poltrona, tudo bem. Aceitar costuma dar menos trabalho do que discutir. Para crises mais intensas, veja também o guia sobre agitação e agressividade.
Como ajudar o idoso com demência a dormir melhor?
O sono da noite começa a ser construído de manhã. Estudos com famílias que cuidam em casa mostraram que caminhada diária, mais luz durante o dia e uma rotina de sono bem combinada reduzem os despertares noturnos.
- Manhã: acordar sempre no mesmo horário, abrir as janelas, tomar café da manhã perto da luz, e se possível sair um pouco ao sol.
- Tarde: atividade física leve, tarefas simples da casa, visitas e consultas marcadas para esse horário, quando ele costuma estar melhor. Um cochilo curto, se precisar.
- Fim da tarde: acender as luzes antes de escurecer, fechar as cortinas para evitar reflexos nas janelas, diminuir barulho e movimento na casa.
- Noite: jantar leve, pouco líquido nas últimas horas, banheiro antes de deitar, quarto escuro, nem quente nem frio, cortina que bloqueia a luz, edredom em vez de lençol e cobertor, que embolam, e a mesma sequência de todas as noites (pijama, escovar os dentes, uma música, deitar).
Se ele anda pela casa à noite, reveja a segurança: trave as janelas, feche o gás ou tire os botões do fogão, coloque portão firme na escada e tranca nas portas de saída. Mais ideias em segurança em casa.
Anote por uma ou duas semanas o que aconteceu antes de cada noite ruim. Muitas famílias descobrem padrões: o cochilo longo, a visita que agitou, o café da tarde. Esse diário ajuda muito o médico. Para organizar o dia como um todo, veja rotina e atividades.
Pode dar remédio para dormir para idoso com demência?
Não por conta própria. Muitos remédios para dormir e calmantes vendidos com facilidade aumentam a confusão, deixam a pessoa sonolenta durante o dia e aumentam muito o risco de queda e fratura. Às vezes a noite parece melhorar e o dia seguinte piora.
Isso vale para os calmantes do tipo benzodiazepínico (leia mais em benzodiazepínicos no idoso), para antialérgicos que dão sono e até para alguns chás e fitoterápicos misturados com outros remédios. Antipsicóticos também não são remédios para dormir e têm riscos importantes em idosos com demência.
Quando as medidas de rotina não bastam, o médico avalia a pessoa inteira: a causa da insônia, os remédios em uso, outras doenças. Às vezes a solução é tirar um remédio, mudar o horário de outro, ou tratar dor, depressão ou apneia. Quando um remédio é indicado, a escolha é individual e acompanhada de perto. Mesmo assim, ele raramente resolve sozinho: funciona como uma peça a mais, junto com as mudanças na rotina.
Quando procurar o médico por causa do sono?
Procure o médico quando a noite mal dormida vira rotina, quando a família já está exausta ou quando aparecer algum destes sinais:
- Ronco alto com pausas na respiração, ou muito sono durante o dia (pode ser apneia do sono).
- Levantar muitas vezes para urinar, ardência ao urinar ou cheiro forte na urina.
- Sinais de dor: gemer ao se mexer, proteger uma parte do corpo, ficar mais irritado ao ser tocado.
- Gritar, se debater ou “lutar” durante os sonhos.
- Pernas inquietas ao deitar.
- Tristeza, choro ou desânimo junto com a insônia.
- Piora do sono logo depois de começar ou mudar um remédio.
Na consulta de psicogeriatria, a família tem tempo para contar como são as noites em casa, e isso muda o tratamento. Se a mudança for súbita, de um dia para o outro, trate como urgência: pode ser delirium.
Procure pronto-socorro ou ligue para o SAMU 192 se a confusão começar de repente (horas ou poucos dias), se houver febre, queda com batida na cabeça, sonolência difícil de acordar ou agitação com risco para ele ou para outras pessoas. Confusão súbita pode ser delirium, que costuma ter uma causa clínica tratável.
Para quem cuida
Quem passa a noite em claro não consegue cuidar bem durante o dia. Combine revezamento com outros familiares ou com um cuidador noturno pelo menos algumas noites por semana. Pedir ajuda faz parte do cuidado e protege a sua saúde também.
PERGUNTAS FREQUENTES
Dúvidas sobre sono e fim de tarde
Por que o idoso com demência piora no fim da tarde?
É a síndrome do entardecer. A doença desregula o relógio interno do cérebro, a pessoa chega cansada ao fim do dia e a falta de luz aumenta a confusão. Rotina, luz de dia e casa bem iluminada à noite costumam ajudar.
Pode dar remédio para dormir para idoso com demência?
Não sem avaliação médica. Muitos remédios para dormir pioram a confusão e aumentam o risco de quedas. O médico procura antes causas tratáveis e revisa os remédios em uso.
É normal o idoso com demência trocar o dia pela noite?
É comum, principalmente nas fases moderada e avançada. Luz natural pela manhã, atividade à tarde e poucos cochilos ajudam a reorganizar o ciclo, mas os resultados levam algumas semanas.
O que fazer quando ele acorda de madrugada querendo sair?
Fale pouco e com calma, ofereça água e banheiro, e acompanhe de volta para a cama. Deixe portas e chaves em segurança e uma luz noturna no caminho.
As noites em casa estão pesadas demais?
Uma avaliação cuidadosa procura as causas do sono ruim e revisa os remédios em uso. A primeira consulta tem 2 horas, e a família participa.
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Conteúdo revisado por Dr. Thyago Furtado (CRM-SP 194425 · RQE Psiquiatria 71263 · RQE Psicogeriatria 712631). Última revisão: setembro de 2026. As informações desta página são educativas e não substituem a avaliação médica.
Referências
- Reimus M, Siemiński M. Sundowning Syndrome in Dementia: Mechanisms, Diagnosis, and Treatment. J Clin Med. 2025;14(4):1158.
- Menegardo CS, et al. Sundown syndrome in patients with Alzheimer’s disease dementia. Dement Neuropsychol. 2019;13(4):469-474.
- McCurry SM, et al. Nighttime insomnia treatment and education for Alzheimer’s disease: a randomized, controlled trial. J Am Geriatr Soc. 2005;53(5):793-802.
- Kales HC, et al. Assessment and management of behavioral and psychological symptoms of dementia. BMJ. 2015;350:h369.
- Alzheimer’s Association. Sleep Issues and Sundowning.
- Mace NL, Rabins PV. The 36-Hour Day: a family guide to caring for people who have Alzheimer disease and other dementias. 7th ed. Baltimore: Johns Hopkins University Press; 2021.