Início › Cuidador › Comportamento › Alucinações e desconfiança
COMPORTAMENTO NA DEMÊNCIA
Idoso acha que estão roubando: alucinações e desconfiança na demência
Quando o idoso com demência acha que estão roubando, quase sempre ele guardou o objeto e esqueceu onde. Como não lembra, a explicação que o cérebro encontra é o roubo. Não discuta nem tente provar o contrário. Acolha a preocupação, ajude a procurar e mantenha cópias dos objetos que mais somem.

Dicas práticas para o dia a dia
- Responda ao medo ou à raiva dele antes de pensar nos fatos.
- Ajude a procurar o objeto em vez de discutir quem pegou.
- Olhe primeiro nos esconderijos de sempre, inclusive no lixo antes de esvaziar.
- Tenha cópias de óculos e chaves e use localizador nos objetos que mais somem.
- Explique o que ele vê com calma, como “aquilo é a cortina mexendo com o vento”.
- Confira óculos, aparelho auditivo e a luz do quarto à noite.
- Diga à cuidadora ou ao parente acusado que você confia nele.
- Leve ao médico se as alucinações forem novas, repentinas ou assustadoras.
Por que o idoso com demência acusa a família de roubar?
Porque a memória falha e o cérebro tenta preencher o buraco. Ele guardou a carteira num lugar seguro, esqueceu, e quando procura não encontra. A conclusão que faz sentido para ele é que alguém pegou. Muitas vezes quem mais é acusado é justamente quem está mais perto: o filho que cuida, a esposa, a cuidadora.
Essa crença falsa, que não muda com argumentos, se chama delírio. Na demência os delírios mais comuns são de roubo, de que o cônjuge está traindo, de que a casa não é a casa dele ou de que alguém da família é um impostor. São sintomas da doença, como o esquecimento.
Alucinação é outra coisa: é ver, ouvir ou sentir algo que não está ali. Por exemplo, ver crianças na sala, bichos no chão ou alguém parado no canto do quarto. As duas coisas podem aparecer juntas, e as duas merecem atenção.
Como reagir quando ele diz que roubaram alguma coisa?
Não tente convencer. Discutir quase sempre aumenta a desconfiança e deixa a pessoa mais agitada. O caminho que costuma funcionar é:
- Acolha o sentimento. Em vez de “ninguém pegou nada, o senhor que perdeu”, tente “que chato, eu entendo a sua preocupação, vamos procurar juntos”.
- Ajude a procurar. Com o tempo você descobre os lugares de sempre: gaveta de meias, bolso do casaco, embaixo do colchão.
- Deixe que ele encontre. Se você achar, diga “olha, será que não está aqui?” em vez de “tá vendo, estava aqui o tempo todo”.
- Mude de assunto depois. Um café, uma música, uma tarefa em que ele possa ajudar.
Antes de tudo, confira se a desconfiança não tem fundamento. Idosos com demência são alvo fácil de golpes e até de maus-tratos.
Diminua os esconderijos: tranque alguns armários, guarde joias fora do alcance e não deixe muito dinheiro em casa. Se a acusação é sobre móveis que foram doados ou sobre o dinheiro que a família passou a administrar, uma lista simples ajuda algumas pessoas: “A cristaleira ficou com a tia Lúcia.” Quando chegar uma cuidadora nova, fique em casa nos primeiros dias para ele se acostumar com ela.
Tenha cópias do que mais some. Um segundo par de óculos, chaves reserva, uma carteira com pouco dinheiro e documentos em cópia. Guarde os originais importantes em lugar seguro. Para frases que ajudam no dia a dia, veja como conversar com a pessoa com demência.
Como reagir a uma alucinação?
Primeiro, veja se a alucinação está incomodando. Se ele conversa tranquilo com “a menina” que vê no jardim e está calmo, muitas vezes não é preciso fazer nada. Se está com medo, o foco é trazer segurança.
- Fale com calma e, se ele aceitar, segure a mão dele.
- Não diga que é bobagem nem finja que também está vendo. Algo como “eu não estou vendo, mas percebo que isso assusta o senhor, eu estou aqui” funciona melhor.
- Se ele interpreta mal um barulho ou um vulto, explique o que é: “esse barulho é o galho batendo na janela”.
- Acenda mais luzes. Sombras, cortinas balançando e reflexos em janelas e espelhos viram vultos para quem enxerga e interpreta mal.
- Se ele se assusta com o próprio reflexo, cubra o espelho.
- Desligue a TV se ele confunde o que passa na tela com gente de verdade dentro de casa.
- Mude de cômodo ou chame para uma atividade.
Às vezes ele não reconhece o cônjuge ou diz que aquela não é a casa dele. A memória não sumiu: o cérebro não consegue juntar o que os olhos veem. Fale com ele, porque a voz costuma ser reconhecida, e tranquilize sem discutir: “sei que estou diferente, mas sou eu, o Carlos”.
Confira também os sentidos. Óculos com grau desatualizado, catarata e surdez sem aparelho aumentam as chances de ver e ouvir coisas erradas.
Alucinações podem indicar demência com corpos de Lewy?
Podem. Alucinações visuais muito nítidas e frequentes, geralmente de pessoas ou animais, que aparecem já no começo da doença, são um dos sinais típicos da demência com corpos de Lewy. Costumam vir junto com oscilações grandes de atenção ao longo do dia, rigidez ou lentidão dos movimentos parecida com Parkinson, e agitação durante os sonhos.
Esse diagnóstico muda o tratamento. Pessoas com demência com corpos de Lewy podem ter reações graves a alguns antipsicóticos, com piora forte da rigidez, quedas e confusão. Por isso nunca se deve dar remédio “para acalmar” que sobrou de outra pessoa, e vale sempre contar ao médico sobre as alucinações. Saiba mais sobre os tipos de demência em demências.
Quando procurar o médico por causa das alucinações ou da desconfiança?
Sempre que forem novas, intensas ou estiverem trazendo sofrimento. Algumas situações pedem mais pressa:
- Começo súbito, em horas ou poucos dias, com confusão, sonolência ou agitação. Pode ser delirium, causado por infecção urinária, pneumonia, desidratação, dor ou remédio novo.
- Alucinações que surgiram depois de começar ou mudar algum remédio.
- Desconfiança que leva a recusar comida ou remédios (“estão me envenenando”).
- Medo tão grande que ele tenta fugir de casa ou se defender com agressão.
- Acusações que estão desgastando a relação com quem cuida.
O médico investiga causas físicas, revisa os remédios e orienta a família. Medidas sem remédio vêm primeiro. Antipsicóticos podem ser necessários em situações específicas, mas têm riscos importantes em idosos com demência e, por isso, são usados com critério, pelo menor tempo possível e com acompanhamento. Veja também o guia sobre agitação e agressividade.
Procure pronto-socorro ou ligue para o SAMU 192 se a confusão ou as alucinações começarem de repente, se houver febre, queda, recusa total de comer e beber, ou agressividade com risco. Se ele falar em morrer ou em se machucar, ligue também para o CVV 188 (24h, gratuito).
Para quem cuida
Ser acusado de roubo por quem você cuida dói, mesmo sabendo que é a doença falando. Converse sobre isso com alguém de confiança e combine com a família que ninguém vai levar a acusação para o lado pessoal. Se a acusação cair sempre sobre você, peça a outra pessoa que assuma alguns cuidados por um tempo.
PERGUNTAS FREQUENTES
Dúvidas sobre alucinações e desconfiança
Por que o idoso com demência acusa a família de roubar?
Porque ele guarda objetos e esquece onde. Sem a lembrança, o cérebro conclui que alguém pegou. É um sintoma da doença, e discutir costuma piorar.
Como reagir a uma alucinação na demência?
Mantenha a calma, não discuta e não finja ver o que ele vê. Reconheça o medo, ofereça segurança, melhore a iluminação e mude o foco para outra atividade.
Devo concordar com o que ele está vendo ou dizendo?
Não é preciso concordar nem desmentir. Responda ao sentimento: “entendo que isso preocupa o senhor, vamos ver juntos”. Isso evita briga sem enganar.
Alucinação na demência sempre precisa de remédio?
Não. Alucinações que não assustam nem trazem risco muitas vezes só pedem acolhimento e ajustes no ambiente. Quando há sofrimento ou risco, o médico avalia se o remédio vale a pena.
O que fazer se ele disser que querem envenená-lo?
Não insista na hora. Ofereça a comida em outro momento, deixe que veja você servir do mesmo prato ou abra o pacote na frente dele. Se recusar comida ou remédios por dias, procure o médico.
As acusações e alucinações estão pesando em casa?
Uma avaliação ajuda a descobrir se há causa tratável e qual é o tipo de demência. A família participa da consulta e sai com um plano para os dias difíceis.
LEIA TAMBÉM
Conteúdo revisado por Dr. Thyago Furtado (CRM-SP 194425 · RQE Psiquiatria 71263 · RQE Psicogeriatria 712631). Última revisão: setembro de 2026. As informações desta página são educativas e não substituem a avaliação médica.
Referências
- Kales HC, et al. Assessment and management of behavioral and psychological symptoms of dementia. BMJ. 2015;350:h369.
- McKeith IG, et al. Diagnosis and management of dementia with Lewy bodies: Fourth consensus report of the DLB Consortium. Neurology. 2017;89(1):88-100.
- Inouye SK, et al. Delirium in elderly people. Lancet. 2014;383(9920):911-22.
- Alzheimer’s Association. Suspicions and Delusions.
- Mace NL, Rabins PV. The 36-Hour Day: a family guide to caring for people who have Alzheimer disease and other dementias. 7th ed. Baltimore: Johns Hopkins University Press; 2021.